Um espaço brasileiro totalmente dedicado à Camus

Esta página traz artigos, reflexões e material de estudiosos e pessoas no Brasil que se interessaram pela vida e obra do escritor franco-argelino Albert Camus (1913 - 1960), primeiro africano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, e autor de livros como O Estrangeiro (usado para batizar nosso site).

Se você tem interesse nesse pensador influente sobre temas como o absurdo no romance, no teatro e na filosofia, além de opiniões bastante divergentes sobre a política socialista em 1940-50, esta webpage é dedicada a trazer mais material exclusivo. Reuniremos aqui um time de escritores e de especialistas que trará o que há de mais substancial na trajetória camuseana pela história.

Boa leitura,

Pedro Zambarda, editor do site.

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Biografia


Albert Camus foi romancista, ensaísta e jornalista. Nasceu em Mondovi, em 1913, cidade interiorana conhecida hoje como Dréan. Era pied-noir, pé preto, argelino. Conviveu com o colonialismo francês e cresceu em um país castigado pelo subdesenvolvimento. Formou-se em filosofia na Universidade de Argel. Conseguiu penetrar no círculo de intelectuais francesas nas décadas de 1940 e 50.

"Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde seu primeiro movimento. Um escravo, que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando. Qual é o significado deste 'não'?" (O Homem Revoltado. p. 25)
Engajou-se na Segunda Guerra Mundial como editor do jornal clandestino Combat. Escreveu sobre o absurdo filosófico, herança dos pensadores Søren Kirkegaard e Friedrich Nietzsche, na forma de ficção alegórica e reflexões sobre seu tempo. Conheceu e se relacionou com Jean-Paul Sartre e seu existencialismo intelectual. Criticou o engajamento de Sartre, que começou a favorecer a violência como fator de mudança para socialismo.

"Filósofo, Camus? Não, se os parâmetros – ocidentais – forem Platão, Kant, Hegel, Russel, Wittgenstein, Popper, Sartre... Camus repetiu que não era filósofo, e sobretudo que não era um existencialista, mas, vítima de uma coqueteria cultural francesa, não insistiu muito. Em Estocolmo, nas conversas na embaixada, ele o lamentou. Sabia que Sartre era mais “brilhante”. Mesmo examinando-o com critérios da tradição francesa, poderíamos dizer que Camus contribuiu para avanços filosóficos, a não ser opondo-se ao sistema – o que não é pouca coisa?"
(TODD, Olivier. Albert Camus: Uma vida. p. 773)
Faleceu em Villeblevin, em 1960, em um acidente de carro indo para Paris. Foi um símbolo de uma visão da política de esquerda alternativa, ati-bélica, crítica das ações norte-americanas. Escreveu sobre a bomba atômica, sobre as falhas da história e da sociedade. É um escritor que merece ser revisitado para compreender um pico de acontecimentos no século XX: O ano de 1945 e suas consequências.

Obras publicadas:

Carnets I (Cadernetas I), maio 1935 - fevereiro 1942

Révolte dans les Asturies (Revolta nas Astúrias)
, 1936

L'Envers et l'Endroit (O Avesso e o Direito), 1937

La mort heureuse (A morte feliz), escrito entre 1936 e 1938

Noces (Núpcias), 1939

L'Étranger (O estrangeiro), 1942

Le Mythe de Sisyphe (O mito de Sísifo), 1942

Carnets II (Cadernetas II), janeiro 1942 - março 1951

Caligula (Calígula), 1944

Le Malentendu (O malentendido), 1944

Actuelles (Atualidades) I, Crônicas,1944-1948", 1950

La peste (A peste), 1947

Réflexions sur la Guillotine (Reflexões sobre a Guilhotina), 1947

Lettres à un ami allemand (Cartas a um amigo alemão), 1948

L'État de siège (Estado de sítio)
, 1948

Actuelles(Atualidades) II, Crônicas, 1948-1953

Les justes (Os justos), 1949
L’homme révolté (O homem revoltado), 1951
Carnets III (Cadernetas III), março 1951 - dezembro 1959

L'Artiste en prison (O Artista na prisão)
, 1952

L'Été (O Verão), 1954

Requiem pour une nonne (Réquiem para uma freira), 1956

La chute (A queda), 1956

L'Exil et le Royaume (O exílio e o reino), 1957

Les possédés (Os possessos), 1959, adaptação ao teatro do romance de Fiódor Dostoiévski

Le Premier Homme (O primeiro homem), 1960, romance inacabado

Jornalismo francês e Albert Camus


Por Pedro Zambarda de Araújo. Feito em 2009.
Texto publicado originalmente na revista Anagrama, da Universidade de São Paulo (USP)


Resumo / Abstract


Exposição e análise dos editoriais e textos jornalísticos do escritor franco-argelino Albert Camus no periódico da Resistência Francesa Combat. Originalmente, é parte de uma tese de iniciação científica chamada O Jornalista Albert Camus. A imprensa francesa, principalmente através do trabalho sociológico de Érik Neveu, é também apresentada para situar o jornalista engajado que Camus foi durante a Segunda Guerra Mundial.

An article with the exposition and the analysis of the editorials and texts made by the franc-algerian writer Albert Camus in the clandestine journal of the French Resistance, “Combat”. Originaly, this is a part of a thesis of scientic initiation called “The Journalist Albert Camus”. The french press is, specially in the sociological work of Érik Neveu, also presented to point out the engaged journalism of Camus during the World War II.

Palavras-chaves: Albert Camus, jornal Combat, Segunda Guerra Mundial, França, Resistência Francesa, imprensa clandestina, Argélia.

Key-words: Albert Camus, journal “Combat”, World War II, France, French Resistance, clandestine press, Algeria.


1 – Introdução: A importância do jornalismo para entender Camus

Se Albert Camus tivesse escolhido, meticulosamente, sua profissão, provavelmente teria sido juiz. É uma dedução arbitrária, e está longe de ser uma verdade concreta, embora haja uma crítica de juízo moral expressa pelos textos de Camus em seus livros, artigos, ensaios. Tornou-se jornalista pelo dom de retratar a realidade, após cursar filosofia e trabalhar em jornais da Argélia e na editora Gallimard, na França.

Caso ele realmente se tornasse juiz, não teria percorrido a carreira de direito para advogar em nome de alguma pessoa. Provavelmente iria defender o equilíbrio por uma moral humanista, advogando pela democracia que se faz pelas leis, contra injustiças cometidas tanto nos períodos de guerra quanto nas épocas de paz.

Foi dessa forma que participou socialmente como jornalista e, por conta disso, exerceu juízos moralistas de uma maneira coerente e honesta com as leis, que lhe valeu o reconhecimento europeu, tanto literário quanto na imprensa, principalmente a francesa. Isso fica explícito em suas contribuições para o jornal clandestino Combat, entre 1944 e 1947.

Nascido em Mondovi, Argélia, Albert Camus teve uma vida cerceada por dificuldades financeiras, devido à sua origem humilde. Destacou-se, por um esforço de sua parte, como intelectual no jornalismo, na literatura de suas publicações ou na sua filosofia pessoal que ele mostra nos textos e idéias. Abordou assuntos como ética, a chamada “teoria do absurdo” e política.

Embora seja dado pouco enfoque em sua biografia jornalística no Brasil, sua participação na imprensa pode ser notada em diversos periódicos. Um exemplo é a famosa revista Paris-Soir , na qual ele teve discordâncias políticas claras com sua linha editorial sensacionalista durante a primeira parte da Segunda Guerra, entre 1939 e 1941, além do jornal clandestino da Resistência Francesa, chamado Combat, foco desse trabalho. Albert também não se restringiu ao jornalismo francês, tendo colaborado com os periódicos argelinos como o Alger-Repúblicain e o Le Soir-Républicain, ainda que fossem escritos em língua francesa e não em árabe.

A conexão jornalística de Camus é explícita até em seus críticos: Roland Barthes resenhou sobre A Peste como se o livro fosse uma crônica, um registro histórico que se apodera de recursos literários. Em resposta, Albert Camus fez sua defesa do formato de romance sobre a moral humana, embora os dois tenham concordado que o enredo é uma metáfora sobre a situação européia durante a ascensão nazista.

Esse “juiz” pode ser visto na vida e obra de Camus, que se supõe existir, está mais claro através da pesquisa mais específica englobando principalmente sua carreira jornalística. Dessa forma, relendo os artigos publicados em Combat, além da investigação nos livros de ficção, podemos dar um balanço do que Albert Camus pretendia em seus julgamentos, em sua luta por uma moral democrática, que permite a liberdade, mas que deseja justiça e igualdade equivalentes.

Neste trabalho será feita uma leitura de trechos de alguns de seus artigos para constatar se esse “julgador” que militou pelo jornalismo realmente existiu, com comentários que procuram esclarecer tanto o que ele escreveu quanto o que se descobriu com uma pesquisa inicial nos artigos de Combat.

2 – Camus no exercício do jornalismo

Em pesquisa feita por Jacqueline Lévi-Valensi, e traduzida para o inglês por Arthur Goldhammer, na edição lançada pela Pricetown University, Camus at Combat: Writing 1944-1947 reúne artigos publicados pelo franco-argelino durante a Segunda Guerra Mundial, na França. No primeiro capítulo do livro, já encontramos textos sobre um tipo de jornalismo que Albert Camus considerava vital para seu período – tempo de guerra mundial e crises sociais – e que ele contribuiu para fazer crescer na Europa. O texto é de julho de 1944, sem especificação de qual dia foi, e chama-se A Profissão de Jornalista.

Jornalismo clandestino é honrável porque é uma prova de independência, porque envolve um risco. É bom, é saudável, tudo o que tem haver com os atuais eventos políticos têm se tornado perigoso. Se há algo que nós não queremos ver novamente, é a proteção da impunidade por trás de quem com um comportamento tão covarde e com muitas maquinações uma vez teve refúgio.

(CAMUS ALBERT In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 9)

O texto não possui uma autoria certa, uma vez que não há assinatura. A própria pesquisadora Jacqueline afirma que há semelhanças de “tom” entre os textos de Pascal Pia, editor-chefe dessa época de Combat, e os do próprio Camus. No entanto, é certo que as opiniões são condizentes com as de Albert, pois é um jornalismo compatível com os tempos de guerra e com a urgência social de notícias que ele viveu, e que custaram vidas humanas, muitas vezes.

Tornando-as honráveis atividades, política e jornalismo vão ser obrigadas, um dia, a julgar aqueles que as desonraram...

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 9)

O jornalismo então, a partir desse artigo, é retomado diversas vezes pelo franco-argelino. A França anteriormente era dominada por uma imprensa burguesa, com alguns traços populares do pós Revolução Francesa de 1789, e composta por colaboradores sem formação especializada e com reflexos de uma revolução industrial tardia em comparação à Inglaterra, por exemplo. Esses jornais serão drasticamente transformados na Primeira Guerra Mundial, mas a Segunda Guerra transfigura os jornalistas franceses – o interesse financeiro dá lugar ao serviço social. O burguês cede espaço ao proletariado de franceses em ascensão, a esquerda política contesta o milenar cristianismo nacional e os valores passam a ser outros.

Entre 20 e 25 de agosto, Paris é libertada do controle nazista pelas forças da Resistência Francesa. A luta prossegue até as montanhas dos Vosges, no nordeste francês, enquanto o país se prepara para reorganizar seu governo sob a forte influencia do general de Gaulle e dos Aliados, principalmente os Estados Unidos e a Inglaterra.

Assim, em 31 de agosto de 1944, Albert Camus escreve um texto que reflete o surgimento de um novo tipo de jornalismo, vindo de outro grupo de indivíduos, fora da esfera da burguesia. Trabalham para outro tipo de sociedade, não rigorosamente demarcada por uma aristocracia rica que detém toda a cultura escrita, mas repartida entre os populares e proletários vindos de uma educação a nível nacional.

O que nós queremos? Uma imprensa que seja clara e viril e escreva em um estilo decente. Quando nós sabemos, como nós jornalistas temos conhecimento nesses últimos quatro anos, que escrevendo um artigo pode trazer você até a prisão ou te matar, fica claro que as palavras tem valor e devem ser mensuradas cuidadosamente. O que nós estamos esperando é restaurar a responsabilidade jornalística com o público.

Albert Camus

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 22)

Os obstáculos que o jornalista enfrenta, às vezes cedendo ou superando aos interesses, estão sempre presentes. Camus contraria o conhecimento popular “nós oferecemos apenas o que o público quer”. Albert supõe, com uma boa dose de ética, refletindo sobre importância de sua profissão, que os leitores e espectadores da imprensa, na realidade, são habituados e manipulados para receber as informações da forma que lhes é apresentada. O procedimento do jornalista deve mudar, junto com toda a sociedade francesa que ele vislumbra, teoriza e luta para que seja feita: democrática, equilibrada e justa, após os traumas da Segunda Guerra Mundial.

Nós também devemos considerar o jornalismo das idéias. Previamente, nós apontamos que a imprensa francesa deixa algo a desejar quando vem com sua concepção de notícias. Jornais procuram informar seus leitores rapidamente do que informa-los bem. A verdade não é beneficiada nessa opção de prioridades.

Albert Camus

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 32)

O trecho acima é e outro artigo, chamado Jornalismo Crítico, escrito e assinado por Camus em 8 de setembro de 44. Ele exemplifica o porquê de Albert criticar os artigos de outros jornais: ele busca um jornalismo que informe bem, não de forma superficial. Podemos criticá-lo por defender somente seu viés em discussões com jornalistas do Le Figaro . No entanto, é bem pertinente sua observação sobre os métodos de jornalismo. Essa forma de formar opiniões sobre a profissão e suas conseqüências consolidou seu espaço no Combat, pelo que é possível perceber já nos primeiros artigos devidamente assinados.

Abordando tendências políticas dentro do jornalismo, após as narrativas sobre a situação alemã e o avanço francês na guerra, Camus dedica o editorial de 7 de outubro de 1944 para criticá-las. O jornal Combat adotou uma postura contra os anticomunistas, alegando que são “um caminho para a ditadura”, segundo seus próprios preceitos. Albert procura não associar o jornal às tendências comunistas, e também desmente que o jornal possua qualquer postura. Na realidade, ele declara que há um objetivo dos jornalistas além dessas posições ideológicas.

Jornalismo não é reconhecido como escola de perfeição. Pode ser necessária uma centena de matérias de jornal para fundamentar uma única idéia claramente. Mas essa idéia pode esclarecer outras, provida da mesma objetividade que foi feita na sua formulação, empregada na investigação de suas implicações.

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 64)

A forma de jornalismo defendida pelo escritor argelino é colocada em prática no editorial do dia 14 do mesmo mês. Camus, que chegou a elogiar os procedimentos do primeiro-ministro britânico da época, Winston Churchill, criticou tanto a posição dos ingleses quanto dos norte-americanos durante a guerra. A narrativa direta de Albert sintetiza suas idéias e o contexto da época, que era a luta contra ditaduras e a restauração dos países afetados pelo conflito.

A diplomacia americana hoje se encontra em uma situação paradoxal. Carregam uma guerra contra o fascismo enquanto mantém relações oficiais com uma das maiores regimes ditatoriais e se recusando a reconhecer um governo nascido do embate contra o opressor hitlerista.

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 72)

Essa luta pelo reconhecimento nacional no jornalismo, pela reconstrução da França e sua consolidação como país, reunidos com os princípios da Resistência Francesa, fez com que Albert Camus criticasse os artigos de François Mauriac, jornalista do Le Figaro, que defendiam um tipo de franceses, com idéias que não, necessariamente, compactuam das opiniões do movimento. A briga e a disputa profissional com Le Figaro se prolongaram em outras ocasiões. Camus questiona, na série de matérias Justiça e Guerra, de Mauriac, se há, realmente, alguma diferença entre o país e o movimento da Resistência Francesa, acusando-o de defender algo diferente do interesse público em restaurar o país. O editorial de 20 de outubro de 1944, sem assinatura, mas com uma escrita que caracteriza seus textos, traduz integralmente essa idéia.

A voz não é única como aparenta. Senhor Mauriac concorda que representamos apenas a Resistência, mas nós fomos bobos o bastante para pensar que a Resistência foi idêntica com a França. Se nós precisássemos de um papel que represente algo diferente da resistência do povo francês, qual deveria representar?

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 80)

No dia seguinte ao ataque irônico contra François, 21, Camus fez outro editorial ainda sem assinar no Combat. Nessa introdução do jornal, Albert faz um paralelo interessante entre o conceito de “revolução” que ele e o jornal defendem, que renovará a sociedade punindo traidores, enquanto há o conflito que se segue em território alemão, também derramando sangue francês.

Nem podemos nós esquecer que em ambos os casos a vida dos franceses estão em fadadas: o melhor de nós terá que morrer na guerra e nós destruiremos os piores de nós na revolução.

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 82)

Camus não deseja apenas que a França ganhe a guerra – deseja uma vitória com a verdade, a maior das virtudes morais, que acabaria com suas crises internas e apontaria os verdadeiros culpados. Caso o país não encontre sua realidade no conflito, pagará caro pelos seus deslizes. Ele direciona o ativismo para uma renovação que, além de acabar com os estrangeiros, acabe com os executores, os bandidos e os maus compatriotas internos. Quando isso não ocorreu, também não houve um sucesso em dar o tratamento justo a todas as tragédias presenciadas.

Esses artigos, que ficam entre a autocrítica da imprensa e a discussão sobre as mazelas da guerra dão uma demonstração de como Camus situou assuntos atemporais e, simultaneamente, importantíssimos para a época. Na elaboração deste trabalho, foram feitas as leituras de cerca de 165 textos, separados em 138 editoriais e 27 artigos . Embora seja apenas um periódico, o Combat, é uma excelente demonstração.

3 – As particularidades do jornalismo francês

O sociólogo Érik Neveu traça em Sociologia do Jornalismo estudos singulares sobre as diversas tendências jornalísticas mundiais . Sobre a prática profissional na França, ele categoriza um antagonismo inicial: não há a figura do trabalhador especializado, mas sim colaboradores nos periódicos. Esse ofício fez com que personalidades como Honoré de Balzac se lançassem na literatura, além do trabalho jornalístico ser um local propício para a construção da imagem pública de um político, de uma pessoa que nutre ambições sociais.

Essa visão abrangente sobre esse tipo específico de jornal segue nas explicações de Neveu – o jornalismo é totalmente inclinado para a literatura nos primórdios da imprensa francesa. Homens exemplares acabam criando uma cultura de ajuda, de repartir experiências, ainda fora da competição entre os profissionais que se criou ao longo dos anos, principalmente no começo século XX, na própria França.

Nenhum dos personagens descritos fez entrevistas. A competência dos jornalistas é literária, feita no talento polêmico, de pirotecnia retórica. Múltiplas premissas manifestam essa inclinação literária do jornalismo francês. As publicações que fazem decolar uma imprensa de massa (La Presse, de Giradin, em 1839; Le Petit Journal, de Millaud, em 1863) se utilizam de um produto de apelo que é o folhetim redigido por célebres penas (Balzac, Dumas, Hugo, Sue). De Zola a Camus, essa tradição de cooperação tornou-se um traço do jornalismo francês, cujos monstros sagrados (Londres, Bodard) associam a figura do escritor à do repórter.

(NEVEU, Érik. In: Sociologia do Jornalismo. 2006. pág. 28)

Desses folhetins, surgiram livros, um processo semelhante ao aclamado New Journalism norte-americano. Do artigo publicado, ou de vários deles, fragmentados em diversas edições, emergiram obras inteiras, ampliadas e consideradas na universalidade da linguagem literária. Entretanto, é necessário frisar que a semelhança entre esses dois fenômenos – o jornalismo tipicamente literário que demarcou a França e o jornalismo americano que convergiu para o formato dos livros – acaba mostrando diferenças ao investigarmos seus fundamentos.

No trecho que Neveu traça um panorama das faculdades de jornalismo francesas na atualidade , é expressivo o baixo percentual de formados no exercício da profissão: 12%, no ano de 1999. Mesmo com um centro de ensino superior formado em 1924, em Lille, a carreira não sofreu um aperfeiçoamento metodológico como em outras partes do mundo.

Apesar de tais considerações, categorizar os franceses como jornalismo “inferior” é uma noção precipitada e mal-revisada, pois a imprensa atual foi diretamente afetada pelo fenômeno da globalização. Essa comunhão de mídias de locais totalmente distantes (utilizando internet e as tecnologias de rede), pela aquisição de informações fora do país em uma velocidade muito superior (comparado a cinqüenta anos atrás), gerou um standart maior de jornalismo: surgem mais empregos de freelance e trabalhos temporários que cortam o número de profissionais com trabalho fixo. Há o fenômeno das assessorias de imprensa e as fontes que fornecem informações voluntariamente através de formatos “prontos” de press releases, além do jornalista contratado que se restringe nas redações e nas edições , indo pouco para a rua, seja para fazer uma simples nota ou uma reportagem.

Neveu coloca, de maneira bastante coerente e comparativa, comentários de jornalistas franceses sobre os ingleses e vice-versa. Essas críticas abrem, de maneira clara, o que fundamentalmente diferencia, em termos gerais, o conceito jornalístico na Inglaterra / Estados Unidos (anglo-saxão) e na França.

A informação em excesso [...] transformou o jornalismo, matou os grandes artigos de discussão, matou a crítica literária, deu cada dia mais espaço às notas, às notícias grandes e pequenas, ao processo-verbal das reportagens e das entrevistas.

Do escritor Émile Zola, sobre o modelo norte-americano de jornalismo, escrito em 1888.

Os jornais alemães, ingleses, belgas, italianos, suíços são informativos e instrutivos, mas geralmente mal escritos e tediosos. O jornal de Paris não informa nada, ou explica de forma incompleta, mas é interessante mesmo assim, porque seus jornalistas são os primeiros do mundo na habilidade da escrita e na arte de manejar um artigo.

Do correspondente do La Gazette de Lausanne, Édouard Secrétan, em 1902.

(NEVEU, Érik. In: Sociologia do Jornalismo. 2006. pág. 27)

Essas particularidades são constantes objetos de estudo textual, sociológico ou político no jornalismo. Embora se apliquem de maneira geral nas diversas imprensas que surgem em escala mundial, há, em determinados jornalistas e contextos históricos, o uso maior de um vocabulário literário ou de uma “automação ” da notícia.

O contexto particular de uso de recursos literários é o caso do New Journalism norte-americano. O trabalho de Carlos Rogé Ferreira examina as críticas do modelo mais mercadológico do jornalismo inglês, do “facts, facts, facts”, segundo Érik Neveu, e percorre livros como Miami e o Cerco de Chicago e Os Exércitos da Noite, de Norman Mailer; O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe; Os Honrados Mafiosos, Gay Talese; Lúcio Flávio – O passageiro da Agonia e Aracelli, Meu Amor, de José Louzeiro; além de Rota 66, Caco Barcellos. Dessa forma, o pesquisador também aborda esses formatos do New Journalism, também colocado em livros-reportagens e os chamados “romances da realidade”, líderes de venda atualmente, em comparação com a literatura mais imaginativa e clássica.

Esse livro chama-se Literatura e Jornalismo: Práticas Políticas. Em um texto que tem como suporte as próprias obras literárias ligadas ao jornalismo, Rogé mostra como Norman Mailer tornou o New Journalism público através de um exercício fora dos parâmetros jornalísticos. Enquanto isso, Tom Wolf foi famoso por trazer assuntos polêmicos para o campo público, como drogas ilegais, o LSD e a vida errante que deu origem aos famosos junkies.

Através de um leque distinto de exemplos, citando inclusive autores de livros brasileiros, como Barcellos, Rogé traz um estudo que relaciona, isso sim, elementos da contracultura e literatura beat , que é norte-americana, da década de 1950, com movimentos sociais dos hippies nos anos 60 e a ascensão de autores jornalistas críticos, posteriormente. Norman Mailer e Gay Talese influenciaram os jornais e livros do mundo todo durante o século XX.

Todos esses personagens se manifestaram contra a Guerra do Vietnam , assunto em voga principalmente em 1967, e criaram uma consciência questionadora sobre o contexto de seu tempo, repercutindo futuramente na globalização. O endurecimento dos governos, mesmo travestidos em regimes democráticos, marcou todo o período de Guerra Fria e ainda permanece hoje no contexto mundial, como algo a ser considerado nas ações políticas de protesto.

Dessa forma, o jornalismo praticado no universo anglo-saxão, norte-americano, é ainda muito técnico. O resgate de padrões literários, que não são imparciais como o jornalismo standart, vai contra, de certa forma, aos jornais submissos às hierarquias tanto profissionais quanto práticas, do lead e da chamada “pirâmide invertida”. Por isso, busca-se um protesto nos textos opinativos, uma forma de expressar o que é censurado e editado nos veículos convencionais, trazendo grandes reportagens. Aqui no Brasil, através dos livros-reportagem e das revistas que criaram verdadeiros profissionais na literatura embutida no jornalismo, como a Realidade nos anos 1960, também havia o pretexto de contestar o regime militar que comandava o país na época, de certa forma agindo similarmente à crítica norte-americana.

Diferentemente disso, os jornais franceses exprimiam uma literatura vinda de sua “raiz”, de suas origens como instituição imprensa. Trata-se de uma cultura formada em suas bases, não em seus protestos. Além dessas diferenças estruturais, a inserção literária nos artigos norte-americanos é um protesto e um canal de manifestação dos jornalistas que questionavam a sociedade e os governos, não como os franceses, que possuíam essa forma de texto integrado à imprensa.

4 – Camus como sujeito pós-moderno

Os estudos culturais souberam utilizar antropologia, política econômica, sociologia, teoria da comunicação e todos os seus desdobramentos como instrumentos de comprovação científica, portanto, podendo ser testados através de uma experimentação adequada. Stuart Hall se inseriu nesse contexto popularizando esse estilo de estudo, entre os anos de 1970 e 1979 . De origem jamaicana, da cidade de Kingston, o estudioso, assim como Albert Camus veio da Argélia, se diferenciou dos demais fundadores desse setor de investigação, como os ingleses E.P. Thompson e Raymond Williams, por ter vivido em um país subdesenvolvido.

No livro A identidade cultural na pós-modernidade, de Hall, ele inicia um pequeno e significativo estudo panorâmico tanto na área de antropologia quanto no setor sociológico. Realiza seu trabalho através de três concepções de identidade - sujeitos do iluminismo, que é centrado na razão e nos preceitos filosóficos típicos da época da Revolução Francesa; sociológico, que é afetado pela conjuntura de indivíduos e fatos, não sendo totalmente auto-suficiente; e o pós-moderno, representado pelas contrariedades interiores e exteriores baseadas no contexto mundial típico da segunda metade do século XX .

Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora ´narrativa do eu’.

(HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2002. Pág. 13)

Nessa afirmação de Hall, Camus poderia se encaixar em uma pessoa tipicamente moderna que perdeu seus ideais diante do pós-modernismo que surgiu dos conflitos entre a Resistência Francesa e o governo de Vichy, além de outros eventos que ocorreram em torno da Segunda Guerra. Albert Camus poderia ser categorizado como um sujeito que possuía conceitos moralistas clássicos e democráticos que se perderam diante da realidade competitiva, paradoxal, muito distante de um ideal “sociológico”.

Seria alguém entorpecido pelo que Stuart Hall define por “fantasia”.

No entanto, uma investigação mais detalhada não necessariamente contradiz essa teoria, mas apresenta novos preceitos: se Camus fosse realmente um sujeito totalmente voltado aos ideais iluministas que forjaram a modernidade, conforme Hall aponta nesse livro, ele não seria contra as revoluções armadas ou qualquer forma de execução pública, valorizadas nesse período histórico. O argelino era, isso sim, fundamentado por um conceito político-filosófico mais profundo de democracia. Ele a expressava criticamente em seus livros , como um resgate da utilidade do sistema legislativo em seu conceito mais fundamental, contra os governos feitos puramente por decisões executivas, portanto, parciais e injustas.

Tais conceitos e perspectivas sociais e governamentais nunca se concretizaram, mesmo com as investidas jornalísticas de Albert Camus no jornal Combat, na conclusão da Segunda Guerra Mundial. No entanto, pela configuração mundial formada pelos países que venceram o conflito, os artigos críticos escritos em 1944 até 1947 pelo argelino adquirem um tom de atualidade jornalística crítica justamente pela não concretização de seus anseios. Camus, dessa forma, se encaixa nos primórdios da pós-modernidade com um típico e marcante traço dessa geração: a fragmentação de seus ideais diante da não-realização deles, tanto pela falta de interesse da hegemonia, conforme Hall alega. Faz isso recorrendo aos conceitos de Antonio Gramsci, quanto aos incertos rumos que a globalização e sua relação com uma cultura local estão tomando.

A integração da cultura local, dos “regionalismos”, na globalização, tanto da época de Camus quanto nossa, gera reações diversas com os impactos e as integrações entre países, a aglutinação de culturas e sociedades totalmente distintas. Stuart Hall afirma que há uma “dialética das identidades”, principalmente com os anglo-saxões, norte-americanos e ingleses, presentes como cultura preponderante a nível mundial pós-1945.

Sempre houve uma tensão entre essas identificações e identificações mais universalistas – por exemplo, uma identificação maior com a “humanidade” do que com a “inglesidade” (englishness).

(HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2002. Pág. 76)

O hibridismo presente das diversas origens do jornalismo regional até a cultura fragmentada do pós-modernismo, que Hall categoriza e trata como dialético, coloca Albert Camus como o “estrangeiro”. Ele, em terras francesas, empregou seu moralismo como uma nova alternativa de comunicação na imprensa.

A publicação volume 8 nº1 da revista Communicare , do 1º semestre de 2008, trouxe uma artigo do professor Ciro Marcondes Filho com o título de Stuart Hall, cultural studies e a nostalgia da dominação hegemônica. Discorrendo desde a lingüística de Sassure no começo do século XX até a sociolingüística do francês Pierre Bordieu na década de 1960, o pesquisador traça sob qual contexto e tendências surgem os estudos científicos de Hall sobre a formação cultural. Ciro destaca o conceito de hegemonia presente em Stuart Hall e como ele se alinha aos interesses de uma nova esquerda que estava surgindo no mundo, após os ataques soviéticos em Budapeste, no ano de 1956, surgindo, formalmente, uma crítica ao socialismo soviético.

O professor Marcondes frisa o quanto os sociolingüistas se diferenciavam da chamada “gramática gerativa”, que generalizava a lingüística com o uso de regras matemáticas para normas ditas “universais” e foi fortemente divulgada e teorizada por Noam Chomsky, um dos maiores nomes do MIT e da esquerda norte-americana . O professor da USP também caracteriza fortemente a crítica ao marxismo feita por Antônio Gramsci nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Qual é o ponto de encontro de todas essas discussões teóricas? Elas firmam as teorias de Stuart Hall sobre o sujeito pós-moderno, tantas vezes citado nessa pesquisa.

Stuart Hall é um intelectual e ao mesmo tempo um ativista político que emergiu de forma espantosa nas últimas décadas, especialmente nos Estados Unidos, onde se tornou uma espécie de moda intelectual, em contraposição à lingüística oficial e às suas tendências monopolistas e dominadoras, como veremos adiante, mas, também, contra a “novíssima esquerda” do campo dito “pós-moderno”, não poupando a nenhum de seus representantes, se bem que aproveitando parte de suas contribuições. É, talvez, no quadro atual, o único nome de relevância no pensamento de esquerda que ainda mantém prestígio e ressonância dentro desse espectro político e intelectual.

(MARCONDES F., Ciro. Stuart Hall, cultural studies e a nostalgia da dominação hegemônica. In: Communicare volume 8 nº1. 2008. p.28)

Ciro critica veemente o marxismo de Hall, caracterizando-o como “vestígios” da forma mais clássica do socialismo e recriminando esse pensamento. Porém, o estudioso também categoriza suas teorias como “abertas”, sobretudo quando adquirem um caráter gramsciniano na esquerda política e, portanto, contrário às teses econômicas mais ortodoxas do estruturalismo da década de 70, como as de Louis Althusser.

Isso se deve, possivelmente, ao fato de Hall ser um homem aberto às novidades, ser ilimitado, sempre buscando se renovar e aceitar novas influências que somem com o seu trabalho. Ele tem uma visão de cultura como processo, como produção, como espaço altamente vivo e criativo, dotado de grandes capacidades de resistir e de reagir às imposições deformantes, especialmente da cultura de massas.

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Hall utiliza-se do mesmo raciocínio “flexível” para falar de metáforas. Gramsci dizia que se deveria sair da guerra de manobras para se ingressar na guerra de posições. Era a metáfora da luta política de sua época. Hall a reatualiza para a necessidade atual de se adaptar às circunstâncias. Diz que não opera simplesmente a substituição de uma metáfora por outra, mas “se é surpreendido no meridiano que divide as duas variantes da mesma idéia” e fica-se suspenso entre ambas, abandonando-se uma, sem contudo, transcendê-la, movendo-se para outra, sem englobá-la inteiramente.

(MARCONDES F., Ciro. Stuart Hall, cultural studies e a nostalgia da dominação hegemônica. In: Communicare volume 8 nº1. 2008. p.28 e p.30)

A análise se extende em detalhes sobre estudiosos contemporâneos de Hall, como Michel Foucault e Jean Baudrillard, além de temas como a recepção na comunicação e como Hall se apropria do conceito de hegemonia , que estão além da caracterização pós-moderna. A crítica do professor Ciro Marcondes Filho é um excelente texto para compreensão do intelectual jamaicano, com enorme bagagem teórica e biográfica do objeto estudado.

A hegemonia como discurso social para Hall, de certa forma, também se reflete no pensamento de Albert Camus, principalmente quando o argelino propõe uma revolução moralista, contra as mudanças que o capitalismo emergente (e ideológico) estava causando tanto na imprensa, quanto na sociedade.

5 – Conclusão

Esses poucos artigos mostram que Albert Camus prestou serviços sociais diretos ao instigar a reflexão. Não fez apenas isso sobre sua carreira particular ou sobre as circunstâncias de maneira rasa, mas emitiu opiniões e conquistou leitores. Fez uma prévia do que conquistaria nos anos subseqüentes.

Isso, esse conjunto de princípios, não desmerece ou altera o valor de seu trabalho literário, mas amplifica os assuntos cuja familiaridade, para ele, era íntima. Os textos publicados em jornais mostram o caráter crítico incorrigível de Albert , sendo uma fonte preciosa para estabelecer a ligação entre a história desse argelino e a mídia mundial. Ele foi, de fato, um jornalista “escondido” pelo brilho de ter ganhado um Nobel de Literatura, em 1957.

Questões de “moralismo e política” que predominaram nos livros, foram boa parte da ideologia particular e prática que Camus idealizou e escreveu em Combat. Isso interliga as obras de maneira que não desmerece nem uma parte e, muito menos, as outras.

No Brasil, por conta do golpe militar de 1964 e a instauração de um governo de caráter ditatorial, a literatura de Albert Camus provavelmente não foi melhor divulgada por sua associação aos movimentos socialistas da Resistência Francesa. Além disso, o pouco de livros de esquerda que eram difundidos em nosso país sofria censura pelos próprios engajados políticos do Brasil, que não aceitavam críticas ideológicas ao socialismo, como Camus fez, mesmo tendo colegas que compactuavam desse ideário. Livros como O Homem Revoltado tiveram uma repercussão muito negativa após as críticas de Jean-Paul Sartre, o que gerou rompimento entre ambos em 1952.

Considerando essas circunstâncias, as obras jornalísticas de Albert Camus não foram traduzidas e não há muito interesse entre os estudiosos humanísticos brasileiros em trazer tais textos a público, com poucas exceções. Em traduções britânicas , ou mesmo nos textos originais franceses, a mensagem universal do jornalismo camusiano permanece escondida e merece um tratamento distinto, tanto de edição quanto de pesquisa . Jornais como Alger-Repúblicain e L´Express são exemplos que o trabalho de Camus não foi homogêneo e que pode trazer novas interpretações sobre o começo da Guerra Fria.

Os registros jornalísticos de Albert Camus em Combat possuem uma importância própria que podem servir de inspiração ao futuro jornalista, ou apenas para a pessoa que admira esse trabalho de imprensa engajada. Michel Winock faz um relato bem específico sobre o jornal Combat e seus integrantes no livro O Século dos Intelectuais.

Combat sobressai de imediato em toda essa imprensa. Pia (diretor) e Camus (redator-chefe) conseguem torná-lo, conforme pretendem, um jornal independente, nem partidário nem estipendiário, nem “popular”, nem oficial. Naquele momento, uma das principais contribuições de Camus terá sido sua exigência de um jornalismo de alto gabarito, fundado em uma deontologia – “um país vale, muito frequentemente, o que vale sua imprensa”.

(WINOCK, Michel. O Século dos Intelectuais. 2000. cap.43 “As lutas de Camus”)

Albert Camus é um autor de mistérios e de esclarecimentos – um africano que se destacou pelo Nobel de Literatura de 1957, um simpatizante do socialismo (quando era amigo de Sartre) que fez críticas a própria ideologia, um jornalista que pregava a reforma do próprio jornalismo, uma reforma da própria ética do ser humano, além ter sido autor de mensagens universais, e curtas, que transmitia por suas máximas, sem cair em equívocos e fazendo diversas reflexões.

Camus definiu sua maneira de encaixar sua arte, sua vida, sua moral. “Nenhuma grande obra [...] nunca se fundamenta verdadeiramente no ódio ou no desprezo. Em algum lugar de seu coração, em algum momento de sua história, o verdadeiro criador acaba sempre por reconciliar. Ele atinge então a medida comum na estranha banalidade em que se define [...] Se o artista não pode recusar a realidade, é porque ele tem por encargo dar-lhe uma justificação mais elevada . Como justificá-la se decidimos ignorá-la? Mas como transfigurá-la se consentimos em nos submeter a ela?” Cada página escrita e bem-sucedida foi uma amarga vitória para Albert Camus.

(TODD, Olivier. Albert Camus: Uma vida. 1998. p. 779)

Bibliografia

Livros:

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NUNES, Aparecida Maria. Clarice Lispector Jornalista. Editora SENAC. São Paulo, 2006.

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Artigos em jornais:

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Artigos em revistas:

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COSTA P., Manuel. O mediterrâneo é aqui. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

COSTA P., Manuel. Uma terra sempre estranha. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

GUTIÉRREZ, Jorge Luís. A Revolta do Homem Absurdo. Revista Filosofia, Ciência e Vida. São Paulo, abril de 2008.

LIUDVIK, Caio. Camus e Sartre, amizade e conflito. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

Sites da internet:

Artigo de Albert Camus na Wikipédia, a enciclopédia on-line.
Disponível em português em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Disponível em inglês em: http://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Disponível em francês em: http://fr.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Acessados em: 20 de dezembro de 2007.

RENTERGHEM, Marion Van. Catherine Camus Profession: fille d´Albert, Artigo do no LeMonde.fr, do dia 29 de agosto de 2007. Disponível em:
http://www.lemonde.fr/cgi-bin/ACHATS/acheter.cgi?offre=ARCHIVES&type_item=ART_ARCH_30J&objet_id=1002266
Acessado em: 22 de outubro de 2007.

CAMUS, Albert. Editorial de Combat, 8 août 1945, jornal Combat. Disponível em: http://www.matisse.lettres.free.fr/artdeblamer/tcombat.htm
Acessado em: 12 de novembro de 2008.

Manifesto sobre liberdade de imprensa de Albert Camus no Le Soir Républicain


Por Pedro Zambarda de Araújo

No dia 18 de março de 2012, o jornal Le Monde publicou um manifesto inédito de Albert Camus. O texto ia ser publicado no Le Soir Républicain, um jornal argelino, mas foi censurado. Na época, estava começando a Segunda Guerra Mundial.

Você confere o texto original abaixo e uma tradução.

Original

L'article que nous publions devait paraître le 25 novembre 1939 dans "Le Soir républicain", un quotidien limité à une feuille recto verso que Camus codirige à Alger. L'écrivain y définit "les quatre commandements du journaliste libre" : lucidité, refus, ironie et obstination. Notre collaboratrice Macha Séry a retrouvé ce texte aux Archives nationales d'outre-mer, à Aix-en-Provence. Camus dénonce ici la désinformation qui gangrène déjà la France en 1939. Son manifeste va plus loin. Il est une réflexion sur le journalisme en temps de guerre. Et, plus largement, sur le choix de chacun, plus que celui de la collectivité, de se construire en homme libre.

Il est difficile aujourd'hui d'évoquer la liberté de la presse sans être taxé d'extravagance, accusé d'être Mata-Hari, de se voir convaincre d'être le neveu de Staline.

Pourtant cette liberté parmi d'autres n'est qu'un des visages de la liberté tout court et l'on comprendra notre obstination à la défendre si l'on veut bien admettre qu'il n'y a point d'autre façon de gagner réellement la guerre.

Certes, toute liberté a ses limites. Encore faut-il qu'elles soient librement reconnues. Sur les obstacles qui sont apportés aujourd'hui à la liberté de pensée, nous avons d'ailleurs dit tout ce que nous avons pu dire et nous dirons encore, et à satiété, tout ce qu'il nous sera possible de dire. En particulier, nous ne nous étonnerons jamais assez, le principe de la censure une fois imposé, que la reproduction des textes publiés en France et visés par les censeurs métropolitains soit interdite au Soir républicain (le journal, publié à Alger, dont Albert Camus était rédacteur en chef à l'époque), par exemple. Le fait qu'à cet égard un journal dépend de l'humeur ou de la compétence d'un homme démontre mieux qu'autre chose le degré d'inconscience où nous sommes parvenus.

Un des bons préceptes d'une philosophie digne de ce nom est de ne jamais se répandre en lamentations inutiles en face d'un état de fait qui ne peut plus être évité. La question en France n'est plus aujourd'hui de savoir comment préserver les libertés de la presse. Elle est de chercher comment, en face de la suppression de ces libertés, un journaliste peut rester libre. Le problème n'intéresse plus la collectivité. Il concerne l'individu.

Et justement ce qu'il nous plairait de définir ici, ce sont les conditions et les moyens par lesquels, au sein même de la guerre et de ses servitudes, la liberté peut être, non seulement préservée, mais encore manifestée. Ces moyens sont au nombre de quatre : la lucidité, le refus, l'ironie et l'obstination. La lucidité suppose la résistance aux entraînements de la haine et au culte de la fatalité. Dans le monde de notre expérience, il est certain que tout peut être évité. La guerre elle-même, qui est un phénomène humain, peut être à tous les moments évitée ou arrêtée par des moyens humains. Il suffit de connaître l'histoire des dernières années de la politique européenne pour être certains que la guerre, quelle qu'elle soit, a des causes évidentes. Cette vue claire des choses exclut la haine aveugle et le désespoir qui laisse faire. Un journaliste libre, en 1939, ne désespère pas et lutte pour ce qu'il croit vrai comme si son action pouvait influer sur le cours des événements. Il ne publie rien qui puisse exciter à la haine ou provoquer le désespoir. Tout cela est en son pouvoir.

En face de la marée montante de la bêtise, il est nécessaire également d'opposer quelques refus. Toutes les contraintes du monde ne feront pas qu'un esprit un peu propre accepte d'être malhonnête. Or, et pour peu qu'on connaisse le mécanisme des informations, il est facile de s'assurer de l'authenticité d'une nouvelle. C'est à cela qu'un journaliste libre doit donner toute son attention. Car, s'il ne peut dire tout ce qu'il pense, il lui est possible de ne pas dire ce qu'il ne pense pas ou qu'il croit faux. Et c'est ainsi qu'un journal libre se mesure autant à ce qu'il dit qu'à ce qu'il ne dit pas. Cette liberté toute négative est, de loin, la plus importante de toutes, si l'on sait la maintenir. Car elle prépare l'avènement de la vraie liberté. En conséquence, un journal indépendant donne l'origine de ses informations, aide le public à les évaluer, répudie le bourrage de crâne, supprime les invectives, pallie par des commentaires l'uniformisation des informationset, en bref, sert la vérité dans la mesure humaine de ses forces. Cette mesure, si relative qu'elle soit, lui permet du moins de refuser ce qu'aucune force au monde ne pourrait lui faire accepter : servir le mensonge.

Nous en venons ainsi à l'ironie. On peut poser en principe qu'un esprit qui a le goût et les moyens d'imposer la contrainte est imperméable à l'ironie. On ne voit pas Hitler, pour ne prendre qu'un exemple parmi d'autres, utiliser l'ironie socratique. Il reste donc que l'ironie demeure une arme sans précédent contre les trop puissants. Elle complète le refus en ce sens qu'elle permet, non plus de rejeter ce qui est faux, mais de dire souvent ce qui est vrai. Un journaliste libre, en 1939, ne se fait pas trop d'illusions sur l'intelligence de ceux qui l'oppriment. Il est pessimiste en ce qui regarde l'homme. Une vérité énoncée sur un ton dogmatique est censurée neuf fois sur dix. La même vérité dite plaisamment ne l'est que cinq fois sur dix. Cette disposition figure assez exactement les possibilités de l'intelligence humaine. Elle explique également que des journaux français comme Le Merle ou Le Canard enchaîné puissent publier régulièrement les courageux articles que l'on sait. Un journaliste libre, en 1939, est donc nécessairement ironique, encore que ce soit souvent à son corps défendant. Mais la vérité et la liberté sont des maîtresses exigeantes puisqu'elles ont peu d'amants.

Cette attitude d'esprit brièvement définie, il est évident qu'elle ne saurait se soutenir efficacement sans un minimum d'obstination. Bien des obstacles sont mis à la liberté d'expression. Ce ne sont pas les plus sévères qui peuvent décourager un esprit. Car les menaces, les suspensions, les poursuites obtiennent généralement en France l'effet contraire à celui qu'on se propose. Mais il faut convenir qu'il est des obstacles décourageants : la constance dans la sottise, la veulerie organisée, l'inintelligence agressive, et nous en passons. Là est le grand obstacle dont il faut triompher. L'obstination est ici vertu cardinale. Par un paradoxe curieux mais évident, elle se met alors au service de l'objectivité et de la tolérance.

Voici donc un ensemble de règles pour préserver la liberté jusqu'au sein de la servitude. Et après ?, dira-t-on. Après ? Ne soyons pas trop pressés. Si seulement chaque Français voulait bien maintenir dans sa sphère tout ce qu'il croit vrai et juste, s'il voulait aider pour sa faible part au maintien de la liberté, résister à l'abandon et faire connaître sa volonté, alors et alors seulement cette guerre serait gagnée, au sens profond du mot.

Oui, c'est souvent à son corps défendant qu'un esprit libre de ce siècle fait sentir son ironie. Que trouver de plaisant dans ce monde enflammé ? Mais la vertu de l'homme est de se maintenir en face de tout ce qui le nie. Personne ne veut recommencer dans vingt-cinq ans la double expérience de 1914 et de 1939. Il faut donc essayer une méthode encore toute nouvelle qui serait la justice et la générosité. Mais celles-ci ne s'expriment que dans des coeurs déjà libres et dans les esprits encore clairvoyants. Former ces coeurs et ces esprits, les réveiller plutôt, c'est la tâche à la fois modeste et ambitieuse qui revient à l'homme indépendant. Il faut s'y tenir sans voir plus avant. L'histoire tiendra ou ne tiendra pas compte de ces efforts. Mais ils auront été faits.

Tradução

O artigo que publicamos é de 25 de novembro de 1939, do Le Soir républicain, um jornal de folha única co-dirigido por Camus em Argel. O escritor define, no texto, os "quatro mandamentos do jornalista livre": a lucidez, a recusa, a ironia e a obstinação. Nosso colaborador Macha Sery descobriu o texto no Arquivo Nacional do exterior, em Aix-en-Provence. Camus denuncia a desinformação que assola a França em 1939. Seu manifesto vai mais longe. É uma reflexão sobre o jornalismo em tempo de guerra. E, mais amplamente, é a escolha de cada indivíduo, mais do que em comunidade, para construir um homem livre.

É difícil hoje para discutir a liberdade de imprensa sem ser taxado extravagante, acusado de ser uma Mata-Hari (famosa assassina e espiã holandesa), ou convencido de que se é sobrinho de Stálin.

No entanto, essa liberdade dos outros não é a face da própria liberdade e vamos incluir a nossa determinação em defendê-la se aceitamos que não há outra maneira de realmente ganhar a guerra.

Certamente, a liberdade tem seus limites. É também necessário que isso seja livremente aceito. Sobre os obstáculos presentes hoje à liberdade de pensamento, temos dito tudo o que se podia dizer e diremos de novo e de novo tudo o que se é possível dizer sobre. Em particular, nos surpreende bastante, o começo da censura imposta uma vez na reprodução de textos publicados na França e feita pelos censores metropolitanos de maneira ilegal no  Soir Républicain (um jornal, publicado em Argel, onde Albert Camus foi editor na época), por exemplo. O fato de que, sobre esse assunto, um jornal dependa do humor ou da competência de um homem acaba demonstrando melhor o grau de consciência que temos conseguido.

Um dos bons preceitos de uma filosofia digna desse nome nunca é espalhada em lamentações inúteis diante de uma situação que não pode mais ser evitada. A questão na França hoje não é mais falar de como preservar a liberdade de imprensa. É para saber como, diante da supressão dessas liberdades, um jornalista pode permanecer livre. O problema não interessa mais ao coletivo. Ela diz respeito ao indivíduo.

E justamente o que nós escolhemos para definir aqui as condições e os meios pelos quais, dentro da guerra e em suas servidões, a liberdade pode não apenas ser preservada, mas também manifestada mais uma vez. Estes meios são quatro: a lucidez, a recusa, a ironia e a obstinação. A lucidez requer treinamento de resistência aos aspectos do ódio e ao culto da desgraça. No mundo de nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode ser evitada ou parada a todo o momento por meios humanos. Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para ter certeza de que a guerra, seja qual for, tem causas óbvias. Essa visão clara das coisas exclui o ódio cego e o desespero que se formam. Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta por aquilo que ele acredita ser verdade se a sua ação puder afetar o curso dos acontecimentos. Ele não publica nada que possa despertar o ódio ou que provoque desespero. Tudo isso está em seu poder.

Diante da crescente onda de loucura, também é necessário se opor a certas recusas. Todas as restrições do mundo não criarão um espírito que concorda um pouco em ser desonesto. O ouro, e pouco sabemos sobre os meios de informação, é fácil ser verificado em sua autenticidade. Um jornalista livre deve oferecer toda a sua atenção. Pois, se ele pode dizer o que ele pensa, ele não pode dizer o que ele não pensa ou o que ele acredita ser falso. E isso em um jornal livre é medido tanto pelo que ele diz quanto pelo que ele não diz. Essa liberdade negativa é, de longe, a mais importante de todas, se ela se mantiver. Porque ela prepara o caminho para a verdadeira liberdade. Consequentemente, um jornal independente gera suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia o sensacionalismo, remove invenções, organiza os comentários padronizando a informação, em resumo, ele é a verdade, na concentração das forças humanas. Essa recusa, se ela está é assim, pelo menos, permite que se negue o que nenhuma força na terra pode fazer o jornal aceitar: submeter-se às mentiras.

Isso nos leva para a ironia. Podemos imaginar que uma mente que tem gosto e meios para impor restrições é impermeável à ironia. Nós não vemos Hitler, para dar apenas um exemplo entre outros, usar a ironia socrática. Isso mostra que a ironia continua a ser uma arma sem precedentes contra os poderosos totalitários. Ela complementa a recusa na medida em que permite, ao invés de rejeitar o que é falso, dizer o que é a verdade, muitas vezes. Um jornalista livre, em 1939, não se rende a muitas ilusões sobre a inteligência daqueles que oprimem. Ele é pessimista no que se refere ao homem. A verdade expressa em tom dogmático é recusada por ele nove em cada dez vezes. A mesma verdade de forma jocosa é aceita  em cinco de cada dez vezes. Esta disposição é quase igual às possibilidades da inteligência humana. A ironia também explica que jornais franceses como Le Canard e Le Merle se comprometem e podem publicar artigos corajosos conhecidos. Um jornalista livre, em 1939, é necessariamente irônico, mas ele é, muitas vezes, a contragosto. Mas a verdade e a liberdade são exigentes, uma vez que eles tem poucos amantes.

Tal atitude de espírito brevemente definida, obviamente não pode ser sustentada de forma eficaz sem um mínimo de obstinação. Muitos obstáculos são colocados contra a liberdade de expressão. Eles não são mais graves do que desencorajar um espírito. Porque as ameaças, as suspensões e a repressão na França geralmente conseguem o efeito oposto ao que é proposto. Mas devemos admitir que são obstáculos desencorajadores: a constância da estupidez, as organizações covardes, a desinteligência agressiva e, por isso, nós nos desgastamos. Aqui está o grande obstáculo que devemos superar. Obstinação é uma virtude cardeal. Por um curioso paradoxo é evidente que, em seguida, começa nela a objetividade e a tolerância.

Aqui está um conjunto de regras para preservar a liberdade até dentro da servidão, da repressão. E depois? Vai dizer, depois? Não vamos ter pressa. Se apenas a cada francês quiser se manter bem dentro da esfera do que ele acredita que é verdadeiro e correto, se ele quisesse ajudar com sua pequena parte na manutenção da liberdade, resistir ao abandono e descobrir a seu desejo, então, e só então, esta guerra seria vencida, no sentido mais profundo da palavra.

Sim, é muitas vezes a contragosto que um espírito livre do século percebeu sua ironia. O que é engraçado de se ver neste mundo em chamas? No entanto, a virtude do homem é se manter firme diante de tudo o que nega. Ninguém quer reviver esses vinte e cinco anos de experiência, tanto em 1914 quanto em 1939. Devemos, portanto, experimentar um método ainda muito novo de justiça e generosidade. Mas elas são expressas apenas em corações livres e em mentes ainda exigentes. Formar esses corações e mentes, que acordem de vez, é a tarefa tanto do homem modesto quanto do ambicioso que se torna independente. Devemos chegar nisso sem adiar mais. A história será contada ou não através desses esforços. E tudo depende se eles forem feitos.

Resenhas de livros

Confira resenhas feitas por colaboradores para este site.

O primeiro homem é orfão - Sobre O Primeiro Homem.
Por Pedro Zambarda, no Bola da Foca.

Crime sem passado ou futuro - Sobre O Estrangeiro.
Por Pedro Zambarda, no Bola da Foca.

Dois lados do "fracasso da esquerda do século XX" - Sobre Camus e Sartre: O fim de uma amizade no Pós-Guerra.
Por Pedro Zambarda, no Bola da Foca.

Jack Shafer comenta sobre Albert Camus e crítica da imprensa

Jornalista Jack Shafer, da agência Reuters, fez um artigo sobre as ideias de Albert Camus sobre jornalismo e a crítica da imprensa que existe nos dias atuais. Segue uma tradução de Pedro Zambarda acompanhada pela versão original, em inglês.



Fonte: http://blogs.reuters.com/jackshafer/2013/04/10/our-national-pastime-press-criticism/

Nosso passatempo nacional: Crítica da imprensa

Opinião | Por Jack Shafer
10 de abril de 2013

No começo de 1946, Albert Camus disse ao crítico de imprensa do New Yorker, A.J. Liebling, seu plano para um novo jornal.

“Poderia ser um jornal com opinião crítica, a ser publicado uma hora depois das primeiras edições dos outros jornais, duas vezes por dia, pela manhã e no horário da tarde”, disse Camus, que entendia uma coisa ou duas sobre jornalismo, durante sua saída do cargo de redator-chefe do diário Combat de Paris.

“Essa publicação poderia avaliar a veracidade das principais histórias dos outros jornais, com o respeito às políticas editoriais e às práticas passadas de seus correspondentes. Uma vez equipado com cartões de dossiês indexados em cada correspondente, esse jornal crítico poderia trabalhar bem rápido. Depois de algumas semanas, o tom da imprensa iria se conformar mais próximo ao da realidade. Seria um serviço internacional”, disse Camus à Liebling.

Camus nunca conseguiu patrocinadores para seu “jornal crítico” e acabou deixando o jornalismo. Mas a ideia do intelectual se fixou em Liebling como uma fita adesiva, e ele citou ela na entrevista de seu livro de 1948, “The Wayward Pressman”, assim como no obituário de Camus na New Yorker, em 1960. Camus falava em compilar os dados sobre “os interesses, as políticas e as idiossincrasias dos donos [dos jornais]” e de “todo o jornalista no mundo”. Dessa forma, o conteúdo das notícias poderia ser aferido pela credibilidade, ele explicou.

“Mas as pessoas querem saber sobre quanta verdade existe naquilo que elas leem?”, Camus perguntou. “Elas pagariam um jornal de fiscalização? Esse é o problema mais difícil”.

O sonho de Camus de novas análises em tempo real se realizou de forma ampla, embora não exista uma única publicação que trate sobre isso, leitores não pagam por isso e o produto analítico não aparece no impresso. A Web – e a corrida dos jornais, das revistas e dos broadcasters para encher suas páginas em meados dos anos 90 – fez o primeiro jornal crítico (ou de controle) possível em junho de 1997, quando o fundador da [revista] Slate Michael Kinsley contratou o jornalista Scott Shuger para ficar durante a noite do dia anterior procurando na Web histórias que poderiam aparecer de manhã como os principais fatos nacionais. Shuger conseguiria depois compor sua crítica e publicá-la no Slate assim que o sol começasse a nascer na costa leste, assim que a maioria dos assinantes pegassem seus exemplares impressos em suas portas ou consultassem a Web. Kinsley apelidou a coluna de “Today’s Papers”.

Graças à Shuger, e uma miríade de outros que utilizam a Web como sua base de análises, o universo fornece agora enxames de críticos da imprensa e críticos instantâneos o suficiente para dar calafrios ao sonho de Camus. A onda de críticos e jornalistas de imprensa inclui David Carr, Erik Wemple, Dan Kennedy, Dylan Byers, Michael Calderone, Tom Scocca, Rachel Sklar, Craig Silverman, Jeff Bercovici, Eric Deggans, Sara Morrison, Howard Kurtz (e seu programa de TV), Conor Friedersdorf, John Cook, Gregg Mitchell, Jim Romenesko, Roy Greenslade, Ann Friedman e outros. Sites que defendem a causa, como Media Matters, Newsbusters e FAIR mantém a fé política enquanto pressionam a imprensa. Acadêmicos como Jay Rosen, Ed Wasserman e Dean Baker se engajam em dissecar a mídia rotineira. Sites inteiros, podemos citar Poynter e Mediaite mantém o controle sobre a imprensa assim como fazem os sites ligados às publicações Columbia Journalism Review e American Journalism Review. Até o rádio está nesse nicho, com On The Media, assim como as publicações alternativas, revistas da cidade e seus obudsmen (Desculpas aos críticos não estão em minha lista. Aliás, por que tão poucas mulheres? Shani Hilton tem algumas ideias sobre isso).

Como uma proliferação de algas, a crítica da imprensa penetrou em todos os nichos habitáveis. Agora é raro é o talk show de notícias do canal a cabo, uma reportagem de revista ou de blog que atinge o seu ponto médio sem algum tipo de exame e escoriação da imprensa. O atual nível de opiniões assustaria até o leitor de notícias mais experiente da década de 1970, até mesmo o leitor da coluna “Press Clips”, no Village Voice, de Alexander Cockburn. Os leitores de 1960 teriam uma overdose da cobertura saturada de hoje. As pessoas normalmente não se recordam que Liebling (o jornalista que entrevistou Camus), que morreu em dezembro de 1963, trabalhou em parte de seu tempo na imprensa crítica enquanto estava na New Yorker, e foi mais ativo entre 1945 e 1953. Ele analisou notícias de jornais externos em suas colunas, principalmente o Chicago Tribune de Robert R. McCormick, e também criticou as redes e as agências de notícias, principalmente os jornais New York. Ele também disparou sua artilharia não apenas em outros jornalistas, mas também nos donos das publicaçãos, que ele pensava serem canalhas, dedicando ironicamente no The Wayard Press “para a fundação de uma escola de publishers, sem a qual nenhuma escola de jornalismo possa ter sentido”.

Era tão escassa a crítica de imprensa que, logo após a morte de Liebling, Louis M. Lyons, o então curador da Fundação Nieman de Jornalismo da Universidade de Harvard, lamentou seu falecimento em um artigo na Atlantic de maio de 1964. Lyons afirma que, mesmo com Liebling na batida, a imprensa tinha sido "a instituição menos criticada em nossa sociedade, embora ela seja crítica com todo o resto. Nenhuma outra instituição requer mais crítica constante e pesquisa, independente da hipersensibilidade ou criticismo tantas vezes evidenciado por muitos de seus proprietários".

Se nós estamos ressuscitando Lyons, ele provavelmente criaria um ensaio sobre o dano causado à sociedade pelos exércitos de críticos da imprensa. Camus poderia muito bem pular a etapa de construção de reportagens e dossiês para simplesmente comprá-los das empresas de relações públicas, e então alimentar a mão-de-obra para produzir seu jornal crítico para indivíduos que gostam de notícias. E por que não? Assim que meu chefe na Reuters, James Ledbetter, noticiou em 1998 que estava saindo da profissão de crítico da imprensa assim que a Web adquiriu velocidade de escape, todos nós nos tornamos críticos do jornalismo. Discussões políticas, argumentos econômicos até jogos de esportes costumam se ligar com uma crítica da imprensa: Qual solução tem a história correta e qual teve a forma errada? Qual história está sendo negligenciada ou transformada em sensacionalismo? Quem se beneficiou com a cobertura de uma publicação? Qual jornal nos jogou para a guerra? Qual causou o acidente? Quais pautas de um site são indistinguíveis de conteúdo patrocinado? E assim vai.

Foi Camus que desejou que mais informações e análises pesadas tornariam a avaliação do valor de verdade mais fácil. Liebling frisou que isso “levaria muita diversão para fora do fazer das notícias”. No entanto, ambos estavam errados. A onda de informação barata e pronta tem, obviamente, feito a exterminação de parte de uma idiotice que cai em imprecisões um pouco mais facilmente. Mas em outros ramos, a proliferação de informações apenas intensificou o prolongamento e a densidade dos debates, a ponto de nenhum assunto ser resolvido a tempo de ser reconsiderado e taxado como uma “visão revisionista”. A sopa de mídia sem fundo que estamos degustando está sempre em fervura, sempre alimentada por novos ingredientes e pronta para ser contestada. A resolução que Camus procurava não pode ser encontrada.

A previsão de Liebling de que a nova mídia de Camus iria afunilar a diversão dos jornais não foi cumprida.  Bater na imprensa se tornou um passatempo nacional, como o beisebol, o NFL ou o March Madness, e não é um evento sazonal. Ao longo das últimas quatro décadas, a confiança do público na imprensa subitamente declinou – mas não porque a imprensa tornou-se menos confiável, e sim porque eles são afetados por nós. Isso é suficiente para fazer Liebling rir.

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Scott Shuger morreu em 15 de junho de 2002, num acidente de mergulho. Slate descontinuou a coluna “Today’s  Papers” em agosto de 2009, reposta por uma coluna de agregação de notícias. Divulgação: Eu trabalhei na Slate entre 1996 e 2011. Mande sua coluna favorita de Liebling para Shafer.Reuters@gmail.com.

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Our national pastime: Press criticism

Opinion | By Jack Shafer
APRIL 10, 2013

In early 1946, Albert Camus emptied into New Yorker press critic A.J. Liebling’s ear his plan for a new newspaper.

“It would be a critical newspaper, to be published one hour after the first editions of the other papers, twice a day, morning and evening,” said Camus, who knew a thing or two about journalism, having recently resigned his editorship of the Paris daily Combat.

“It would evaluate the probable element of truth in the other papers’ main stories, with due regard to editorial policies and the past performances of the correspondents. Once equipped with card-indexed dossiers on the correspondents, a critical newspaper could work very fast. After a few weeks the whole tone of the press would conform more closely to reality. An international service,” Camus told Liebling.

Camus never found a backer for his “critical newspaper” and eventually left journalism. But the idea stuck to Liebling like duct tape, and he cited the interview in his 1948 book, The Wayward Pressman, as well as his 1960 Camus obituary in the New Yorker. Camus spoke of compiling complete records of “the interests, policies, and idiosyncrasies of the [newspaper] owners” and “every journalist in the world.” Then, the contents of news stories could be gauged for credibility, he explained.

“But do people really want to know how much truth there is in what they read?” Camus asked. “Would they buy the control paper? That’s the most difficult problem.”

Camus’ dream of real-time news analysis has largely been realized, although no single publication produces it, readers don’t have to pay for it and the analytical product doesn’t appear on newsprint. The Web — and the rush of newspapers, magazines and broadcasters to fill its pages in the mid-1990s — made the first critical (or “control”) newspaper possible in June 1997, when Slate founder Michael Kinsley assigned journalist Scott Shuger to stay up all night reading on the Web the stories that would appear that morning in the nation’s top dailies. Shuger would then compose his critique and post it on Slate as the sun rose on the East Coast, well before most subscribers had retrieved the print versions from their doorsteps or consulted the Web. Kinsley dubbed the new column “Today’s Papers.”

Thanks to Shuger, and myriad others who’ve used the Web as their analytical engine, the universe now swarms with enough press critics and instant press criticism to give Camus’ ghost the willies. The surge in critics and press reporters includes David Carr, Erik Wemple, Dan Kennedy, Dylan Byers, Michael Calderone, Tom Scocca, Rachel Sklar, Craig Silverman, Jeff Bercovici, Eric Deggans, Sara Morrison, Howard Kurtz (and his TV show), Conor Friedersdorf, John Cook, Gregg Mitchell, Jim Romenesko, Roy Greenslade, Ann Freidman and others. Advocacy sites like Media Matters, Newsbusters and FAIR keep the political faith while hammering the press. Academics like Jay Rosen, Ed Wasserman and Dean Baker engage in routine media dissection. Entire websites, namely Poynter and Mediaite, keep tabs on the press, as do the sites amending the Columbia Journalism Review and American Journalism Review. Even radio is on the case, with On the Media, as are the alternative weeklies, city magazines and the bleating ombudsmen. (Apologies to the critics not on my list. Also, why so few women? Shani Hilton has ideas.)

Like an algae bloom, press criticism has seeped into every inhabitable niche. Rare is the cable news talk show, magazine feature story, or blog post that reaches its midpoint without some sort of examination and excoriation of the press. The current level of scrutiny would startle the savvy news consumer of the 1970s, even a reader of Alexander Cockburn’s Village Voice “Press Clips” column. Readers from the 1960s would overdose on the saturation coverage. People tend not to recall that Liebling, who died in December 1963, worked only part-time at press criticism while at the New Yorker and was most active between 1945 and 1953. Although he analyzed out-of-town dailies in his columns, most notably Robert R. McCormick’s Chicago Tribune, and criticized the chains and the wire services, the New York dailies were his main course. He also lobbed his hottest ordnance not on other journalists but on newspaper owners, whom he thought were scoundrels, dedicating The Wayward Press “To the Foundation of a School for Publishers, Failing Which, No School of Journalism Can Have Meaning.”

So scant was press criticism that shortly after Liebling died, Louis M. Lyons, then-curator of the Nieman Foundation for Journalism at Harvard, lamented his passing in a May 1964 Atlantic feature. Lyons asserted that even with Liebling on the beat, the press had been “the least criticized institution in our society, though critic of all the rest. No other institution more requires constant and searching criticism, regardless of the hypersensitivity or criticism so often evidenced by too many of its proprietors.”

If we were to resurrect Lyons, he would probably compose an essay on the damage done to society by the armies of press critics. Camus might well skip building his reporter and owner dossiers and simply buy them directly from the PR firms, then crowdsource the labor to produce his critical newspaper to individual news-tasters. And why not? As my Reuters boss, James Ledbetter, noticed way back in 1998 as he was exiting the press critic profession and just as the Web was reaching escape velocity, we’ve all become critics of the press. Political discussions, economic arguments and even sports squabbles frequently turn on a press critique: Which outlet got the story right and which one got it wrong? What story is being neglected or hyped? Who benefited from a publication’s coverage? Which newspaper got us into war? Caused the crash? Which website’s stories are indistinguishable from their sponsored content? And so on.

It was Camus’ wish that more data and heavier analysis would make the assessment of truth-value easier. Liebling fretted that it would “take a lot of the fun out of newspapering.” Yet both were wrong. The flood of ready and cheap information has, obviously, made the extermination of the sort of general idiocy that falls into the Snopes gunsights a tad easier. But elsewhere, information proliferation has only intensified the length and depth of debates to the point that no issue remains settled long enough for a reconsideration of it to deserve the label of “revisionist view.” The bottomless media soup from which we sup is always on boil, always being fed new ingredients and perpetually contested. The resolution Camus sought cannot be found.

Liebling’s prediction that Camus’ new media order would siphon the fun out of newspapering has not been fulfilled. Beating on the press has become as big a national pastime as baseball, the NFL or March Madness, only it’s not a seasonal event. Over the past four decades, the public’s trust in the press has steadily declined — but not because the press has become less trustworthy, but because they’ve caught on to us. That’s enough to make even Liebling laugh.

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Scott Shuger died in a June 15, 2002, diving accident. Slate discontinued “Today’s Papers” in August 2009, replacing it with a news-aggregation column. Disclosure: I worked at Slate from 1996 to 2011. Send your favorite Liebling column to Shafer.Reuters@gmail.com.

Palestra: Albert Camus, o jornalismo e a moral em filosofia

[Palestra ministrada no dia 23 de agosto de 2013 na FFLCH-USP, sala 10]


Boa noite. Gostaria de agradecer ao Centro Acadêmico de Filosofia Professor João Cruz Costa, da Universidade de São Paulo, que possibilitou esta aula no estilo palestra. Agradeço aos colaboradores, editores, poetas, artistas e pensadores que fazem o jornal do CA desta faculdade, o Discurso Sem Método, que pode ser adquirido gratuitamente neste departamento. Agradeço também aos meus melhores amigos, além de meus colegas de filosofia e de jornalismo que estão nesta sala. Vou apresentar aqui a pesquisa de iniciação científica desenvolvida no Centro Interdisciplinar de Pesquisa, o CIP, da Faculdade Cásper Líbero, em minha primeira graduação no curso de jornalismo. A pesquisa foi desenvolvida ao longo do ano de 2008, mas nasceu de leituras do escritor franco-argelino Albert Camus que se iniciaram entre 2006 e 2007. Estou planejando que este projeto se torne, futuramente, uma pesquisa de mestrado.

Confira a apresentação de slides abaixo:


Sou formado em jornalismo na Cásper Líbero, em 2010 e, atualmente, estou estudando filosofia nesta instituição. Esta aula estará disponível na íntegra no site www.albertcamus.com.br, acompanhada por uma bibliografia atualizada. No mesmo site, vocês podem conferir um artigo publicado na revista Anagrama, da ECA, que resume a minha iniciação científica. O nome do artigo é Jornalismo francês e Albert Camus.



Como comecei a pesquisa

Camus foi apresentado para mim através do livro O Estrangeiro, escrito em 1942, que trata sobre um protagonista chamado Mersault, que comete um crime cruel sem uma motivação aparente. Em sua narrativa seca e rica em imagens, Albert Camus me seduziu em sua narrativa. Seu tema principal nesta obra, e em muitos de seus livros, tanto os literários quanto os ensaísticos, é o absurdo, a completa desconexão do indivíduo com um passado e com um futuro. Camus trata sobre a absoluta liberdade, que ocorre com o deslocamento do sujeito da cultura histórica.  

É com este livro que eu inicio a principal discussão desta palestra. Não vamos apenas falar sobre a importância literária de Camus, porque seus livros são clássicos reconhecidos nas livrarias e não são o tema principal do meu trabalho. Aqui nós iremos falar sobre imprensa e história, dois temas que estão diretamente relacionados com o conceito de absurdo.

Camus e o jornalismo

Albert Camus não era apenas escritor. Da pobreza de Argel e Mondovi, ele fez faculdade de Filosofia e conseguiu ter acesso ao mundo editorial. Com ajuda de editores como Gallimard, ele teve acesso ao círculo de intelectuais de Paris, um encontro de grupos que tinha o filósofo Jean-Paul Sartre e sua esposa Simone de Beauvoir como atores importantes e centrais em algumas correntes, como o existencialismo. Sartre foi um leitor, um admirador e um publicitário de O Estrangeiro na Europa. Ele, praticamente, tirou Camus do subdesenvolvimento da Argélia para lançá-lo como intelectual pied-noir no grande continente. E quando Camus chegou em Paris, ele encontrou uma Europa prestes a mergulhar no Nazismo e na Segunda Guerra Mundial. Isso levou o escritor a se engajar na esquerda francesa e numa iniciativa que consumiria sua carreira tanto quanto sua trajetória intelectual: O jornalismo. Meu estudo foi um trabalho de tradução, exploração e interpretação dos artigos de Albert Camus na imprensa francesa. Utilizei um livro em inglês chamado Camus at Combat: Writing 1944-1947, editado por Jacqueline Lévi-Valensi e traduzido para o inglês por Arthur Goldhammer para a Princeton Univesity.

Veja 15 minutos da palestra na FFLCH-USP:


Jacqueline reuniu 165 editoriais e artigos que Camus escreveu em um jornal clandestino da Resistência Francesa chamado Combat. A publicação cobriu soldados franceses contra nazistas e até mesmo os conflitos entre os franceses, entre os socialistas e os defensores da República de Vichy, um governo que se entregou à Hitler acreditando que a Alemanha não destruiria a França se conquistasse novos aliados. Consultei também as versões em francês de alguns editoriais em Combat e estabeleci paralelos entre a literatura e o jornalismo de Camus.

Há um trecho de um editorial de julho de 1944, sem especificação de qual dia foi, explica melhor a profissão de Albert Camus na imprensa. O texto tem o título de A Profissão de Jornalista. Voi ler o texto: 

“Jornalismo clandestino é honrável porque é uma prova de independência, porque envolve um risco. É bom, é saudável, tudo o que tem haver com os atuais eventos políticos têm se tornado perigoso. Se há algo que nós não queremos ver novamente, é a proteção da impunidade por trás de quem com um comportamento tão covarde e com muitas maquinações uma vez teve refúgio. (CAMUS ALBERT In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 9)” 

O jornalismo europeu

Levando em consideração como Camus conceituou o jornalismo de seu tempo, eu passei a pesquisar não apenas sua literatura ou seus artigos em Combat, mas sim as peculiaridades do jornalismo europeu e francês. O acadêmico Érik Neveu descreveu as peculiaridades do jornalismo do Velho Continente bem afastado do formato consagrado pelo hard news norte-americano e o new journalism de autores como Tom Wolfe. Neveu descreve a imprensa europeia como genuinamente literária, e não meramente adaptando uma linguagem descritiva, repleta de figuras linguísticas e de recursos de clássicos em seus textos de cotidiano, ou mesmo no perfil de grandes artistas, da mesma forma que Frank Sinatra foi descrito no livro Fama e Anonimato, de Gay Talese. 

Diz Érik Neveu: “A competência dos jornalistas é literária, feita no talento polêmico, de pirotecnia retórica . Múltiplas premissas manifestam essa inclinação literária do jornalismo francês. As publicações que fazem decolar uma imprensa de massa (La Presse, de Giradin, em 1839; Le Petit Journal, de Millaud, em 1863) se utilizam de um produto de apelo que é o folhetim redigido por célebres penas (Balzac, Dumas, Hugo, Sue). De Zola a Camus, essa tradição de cooperação tornou-se um traço do jornalismo francês, cujos monstros sagrados (Londres, Bodard) associam a figura do escritor à do repórter. (NEVEU, Érik. In: Sociologia do Jornalismo. 2006. pág. 28)”.

Honoré de Balzac foi um profundo cronista do cotidiano. Em sua coletânea de livros da chamada Comédia Humana, que não foi completa em vida, narram os diferentes aspectos da vida francesa e parisiense. Na obra O Pai Goriot, dentro da comédia, ele centra narrativa de forma fragmentada em três personagens que mostram facetas completamente distintas da sociedade: o Le Père Goriot, o pai Goriot, um burguês idoso e benevolente; o criminoso Vautrin e o ingênuo estudante Eugène de Rastignac. 

O Combat de Camus não é igual a essas publicações mais clássicas ou mesmo à literatura realista, ou de comédia, de Balzac. Sua escrita é mais urgente, menos caprichosa, mas igualmente recheada de um conteúdo histórico e cultural que é o recheio da arte francesa. Albert Camus não poupa referências literárias, paralelos com o marxismo e um engajamento explícito e honesto com os leitores de sua época. 

Diz Neveu, citando outro autor Édouard Secrétan, correspondente do La Gazette de Lausanne, em 1902: “Os jornais alemães, ingleses, belgas, italianos, suíços são informativos e instrutivos, mas geralmente mal escritos e tediosos. O jornal de Paris não informa nada, ou explica de forma incompleta, mas é interessante mesmo assim, porque seus jornalistas são os primeiros do mundo na habilidade da escrita e na arte de manejar um artigo. Do correspondente do La Gazette de Lausanne, Édouard Secrétan, em 1902. (NEVEU, Érik. In: Sociologia do Jornalismo. 2006. pág. 27)”. 

Mesmo com as críticas ao formato europeu e francês, o próprio livro Cartas a um Amigo Alemão, escrito por Camus após a Segunda Guerra, é um exemplo de como sua passagem pela imprensa influenciou sua literatura. O livro tem apenas uma tradução para o português de Portugal, mas trata sobre o mal que o nazismo fez especificamente para a França, simulando uma correspondência entre um francês e um alemão, na época. 

Contexto mundial

Por essa diferenciação, de um jornalismo francês clássico para um jornalismo de esquerda em plena Segunda Guerra Mundial, eu pesquisei um conhecimento de antropologia para embasar minhas análises, saindo um pouco da crítica literária, da análise de imprensa ou até mesmo de uma reflexão filosófica sobre o tema. 

Recorri então ao Cultural Studies de Birmingham, uma cidade inglesa tem uma origem fortemente operária no interior do século 20. Esse grupo de estudos surgiu em 1964, com uma metodologia interdisciplinar para explorar os fundamentos da humanidade em seu dia a dia. Este tipo de estudo de antropologia, embora utilizado para alguns pesquisadores sobretudo do meio acadêmico, é muito criticado por abarcar um leque de teorias, métodos e práticas que não se retringem um critério claro e resumido. A interdisciplinaridade dos campos de estudo passa uma noção errada sobre este segmento acadêmico. 

Mesmo com essas dificuldades e críticas constatadas na leitura, decidi incluir as teses de um dos integrantes do Cultural Studies. Seu nome é Stuart Hall e ele é um negro jamaicano que substituiu Richard Hoggart como presidente do departamento de pesquisa. Foi um dos fundadores do Cultural Studies, junto com Raymond Williams. Suas referências são Karl Marx, o italiano Antonio Gramsci e Michel Foucault. 

Seu foco de estudo é o indivíduo pós-moderno e contemporâneo que foi construído a partir do fim da Segunda Guerra Mundial e com a queda das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Hall defende uma crise de referenciais deste indivíduo na história e sua desintegração como indivíduo em um novo mundo, que começou a se polarizar em sistemas econômicos distintos, capitalismo e socialismo, gerando um terceiro bloco de pobreza, chamado anos atrás de Terceiro Mundo. 

Diz Hall, em um de seus livros: “Sempre houve uma tensão entre essas identificações e identificações mais universalistas – por exemplo, uma identificação maior com a “humanidade” do que com a “inglesidade” (englishness)”. (HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2002. Pág. 76)”. 

Hall critica uma regionalidade que se perdeu, justamente, quando a imagem se tornou global, quando a cultura rompeu fronteiras, após duas grandes guerras, e se fragmentou seja propagando a ideologia dominante ou mesmo produzindo produtos híbridos territoriais. Albert Camus vive justamente neste período de transição, no ceio da Segunda Grande Guerra, e tem uma consciência do Terceiro Mundo que era a Argélia. 

Um dos críticos de Stuart Hall é o professor Clóvis Marcondes Filho, da USP, que chegou a ministrar aulas na Faculdade Cásper Líbero antes que eu entrasse na instituição, em 2007. Diz Clóvis na Communicare, uma revista acadêmica de comunicação na Cásper: “Stuart Hall é um intelectual e ao mesmo tempo um ativista político que emergiu de forma espantosa nas últimas décadas, especialmente nos Estados Unidos, onde se tornou uma espécie de moda intelectual, em contraposição à lingüística oficial e às suas tendências monopolistas e dominadoras, como veremos adiante, mas, também, contra a “novíssima esquerda” do campo dito “pós-moderno”, não poupando a nenhum de seus representantes, se bem que aproveitando parte de suas contribuições. É, talvez, no quadro atual, o único nome de relevância no pensamento de esquerda que ainda mantém prestígio e ressonância dentro desse espectro político e intelectual (MARCONDES F., Ciro. Stuart Hall, cultural studies e a nostalgia da dominação hegemônica. In: Communicare volume 8 nº1. 2008. p.28)”. 

Continua Clóvis: “Isso se deve, possivelmente, ao fato de Hall ser um homem aberto às novidades, ser ilimitado, sempre buscando se renovar e aceitar novas influências que somem com o seu trabalho. Ele tem uma visão de cultura como processo, como produção, como espaço altamente vivo e criativo, dotado de grandes capacidades de resistir e de reagir às imposições deformantes, especialmente da cultura de massas. Hall utiliza-se do mesmo raciocínio “flexível” para falar de metáforas. Gramsci dizia que se deveria sair da guerra de manobras para se ingressar na guerra de posições. Era a metáfora da luta política de sua época. Hall a reatualiza para a necessidade atual de se adaptar às circunstâncias. Diz que não opera simplesmente a substituição de uma metáfora por outra, mas “se é surpreendido no meridiano que divide as duas variantes da mesma idéia” e fica-se suspenso entre ambas, abandonando-se uma, sem contudo, transcendê-la, movendo-se para outra, sem englobá-la inteiramente. (MARCONDES F., Ciro. Stuart Hall, cultural studies e a nostalgia da dominação hegemônica. In: Communicare volume 8 nº1. 2008. p.28 e p.30)”. 

É possível criticar Clóvis se você lembrar que existem outros teóricos da esquerda importantes hoje nos Estados Unidos, além de Hall, como Noam Chomsky. Mas Chomsky é influente, na verdade, na linguística, ao defender uma teoria universal de linguagem, além de possuir inúmeros argumentos na política com seu anarquismo, que espanta a direita e os socialistas mais tradicionais. 

Com outras constatações, muito distantes de Chomsky, Hall vai contra uma tendência estática e confortadora das representações humanas na sociedade, é um defensor do fluxo da cultura, do processo e do maleável. Ele é comparável a Camus e à sua realidade em muitos aspectos. 

Camus no Combat

O jornalismo de Albert Camus segue este fluxo. É de esquerda, mas com cultura francesa. Possui uma economia de literatura, de termos e de reflexão de elite, mas não é elitista. É engajado, mas com repórteres envolvidos no front e dando notícias do dia a dia, como qualquer redação regular. É enviesado, mas próximo de uma imparcialidade. Combat e Camus são inspirações para o jornalismo, uma aplicação de uma discussão moral que Camus instaurou logo em seus primeiros escritos de literatura. Ao apresentar personagens absurdos, criticar o marxismo e a história, Albert Camus não estava endossando a loucura, mas sim defendendo a consciência como um pensamento contra o absurdo. 

Como o sol, o absurdo deve ser constatado. Ao invés de falecer diante de seu calor, devemos lutar contra ele, como na Argélia em que Camus viveu. 

Um escritor e historiador chamado Michel Winock explicou, especificamente, o que significou Combat e porque aquele jornal é importante. E este trecho parece resumir o que eu considerei fundamental em meu levantamento científico. Diz Winock: “Combat sobressai de imediato em toda essa imprensa. Pia (diretor) e Camus (redator-chefe) conseguem torná-lo, conforme pretendem, um jornal independente, nem partidário nem estipendiário, nem “popular”, nem oficial. Naquele momento, uma das principais contribuições de Camus terá sido sua exigência de um jornalismo de alto gabarito, fundado em uma deontologia – “um país vale, muito frequentemente, o que vale sua imprensa”. (WINOCK, Michel. O Século dos Intelectuais. 2000. cap.43 “As lutas de Camus”)”.


Como redator-chefe, como editor, Camus estava diretamente relacionado com a opinião da publicação. Mas podemos visualizar, ao ler seus manuscritos e algumas traduções que fiz, que o intelectual franco-argelino também procura refletir no seu texto o trabalho dos repórteres. Além de uma reflexão sobre o que é imprensa. “A diplomacia americana hoje se encontra em uma situação paradoxal. Carregam uma guerra contra o fascismo enquanto mantém relações oficiais com uma das maiores regimes ditatoriais e se recusando a reconhecer um governo nascido do embate contra o opressor hitlerista.(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 72)”, diz Camus, ao se referir às relações paradoxais que os Estados Unidos mantiveram com o governo de Francisco Franco, com o franquismo retratado por Pablo Picasso em Guernica, com um governo sanguinário, tão nefasto para outras nações quanto Hitler. 

E diz Camus, sem fazer referências aos artigos de Combat sobre a ditadura espanhola, ou aos textos do jornal clandestino francês com a queda das bombas no Japão, mas falando sobre os jornalistas: “O que nós queremos? Uma imprensa que seja clara e viril e escreva em um estilo decente. Quando nós sabemos, como nós jornalistas temos conhecimento nesses últimos quatro anos, que escrevendo um artigo pode trazer você até a prisão ou te matar, fica claro que as palavras tem valor e devem ser mensuradas cuidadosamente. O que nós estamos esperando é restaurar a responsabilidade jornalística com o público”. 

A pesquisa nasceu de uma leitura dos livros de ficção camuseanos em 2006. Cresceu com mais livros para uma proposta de iniciação científica em 2007. Foi pesquisado e transformado em monografia em 2008, orientado pela professora doutora Dulcília Buitoni, uma das primeiras mulheres a editar revistas na Abril e uma talentosa estudiosa sobre as relações entre literatura e jornalismo. Em 2009, foi apresentado na Cásper Líbero no primeiro semestre, levado para o congresso Intercom no mesmo ano e depois apresentado no CIC FAI, um congresso de iniciação científica, na cidade de Adamantina, no interior paulista.

Camus é filósofo?

Falei bastante sobre jornalismo, literatura, antropologia, sociologia, Cultural Studies e sobre cerca de 20 livros escritos por Camus ou sobre Camus. Resta falar, afinal, da relação de Albert Camus com a filosofia, já que ele é erroneamente taxado de existencialista por ter sido um grande amigo de Jean-Paul Sartre. 

A verdade é que Camus sequer se nomeava como um filósofo, pois ele recusava o título. O pensador Michel Onfray, que foi divulgado na revista CULT do ano passado, defende que Albert Camus é um herdeiro de Nietzsche no ceticismo e na autocrítica, enquanto segue como extensão de Foucault na crítica formal. Camus se formaria, justamente, como um contraponto à angústia ateia de Sartre, um herdeiro natural de Kierkegaard, que eu pude ler um pouco durante a pesquisa. 

Camus seria, assim, um filósofo do absurdo. Um pensador sobre o ser humano livre, mas mortal em sua essência, seja no Mersault que mata um árabe a tiros sem motivos, ou no Homem Revoltado (1951) que mostra o messianismo e as doutrinas problemáticas do comunismo, um motivo forte de rompimento com Sartre e com boa parte da esquerda. Este rompimento, aliás, levaria alguns escritores contemporâneos, inclusive brasileiros, a afirmarem que Camus seria um autor de direita. Conforme tudo o que exploramos nesta palestra, isso é um evidente erro, um equívoco, já que a crítica da esquerda surgiu no nascimento da própria literatura camuseana e nunca se tornou uma defesa contudente do capitalismo. Camus apenas não defende formas mais ideais de socialismo, mas sempre é favorável a iniciativas socializantes. 

Um dos motivos de Camus não acreditar que é um filósofo é sua própria crítica à filosofia. Durante a pesquisa, pude entrevistar o pesquisador, acadêmico, jornalista e um dos homens que foi curador do Festival de Literatura em Paraty, a FLIP, Manuel da Costa Pinto. Manuel lançou um livro chamado Albert Camus, um elogio do ensaio, onde ele aborda a constituição do ensaio filosófico e sua tradição em autores como Montaigne, Pascal e La Rochefoucaud. Camus estaria nesta tradição e não em Nietzsche, segundo Manuel, no que ele definiu para mim como crítica “solar”, já que Camus utiliza o símbolo do Sol como o do próprio absurdo, e em um texto curto e árido. 

Diz Camus, em uma epígrafe logo na abertura de Manuel: “Os filósofos antigos refletiam muito mais do que liam. Por isso se ligavam tão estreitamente ao concreto. A tipografia mudou isso. Nós lemos muito mais do que refletimos. Não temos filosofias, apenas comentários. Há nessa atitude tanto de modéstia quanto de impotência”. 

Para Manuel, foi fundamental a leitura de Horacio González, ensaísta argentino que, segundo o próprio Manuel, é outro nome que pesquisa Albert Camus e ensaios na América Latina. González foi a principal referência que Manuel me apresentou, principalmente como uma fonte de pesquisas sobre Camus em nosso continente. 

Ainda sobre filosofia, Camus toma outro posicionamento, grifado por seu biógrafo Oliver Todd. Diz o biógrafo, não Camus em si, mas citando várias de suas entrevistas: “Filósofo, Camus? Não, se os parâmetros – ocidentais – forem Platão, Kant, Hegel, Russel, Wittgenstein, Popper, Sartre... Camus repetiu que não era filósofo, e sobretudo que não era um existencialista, mas, vítima de uma coqueteria cultural francesa, não insistiu muito. Em Estocolmo, nas conversas na embaixada, ele o lamentou. Sabia que Sartre era mais “brilhante”. Mesmo examinando-o com critérios da tradição francesa, poderíamos dizer que Camus contribuiu para avanços filosóficos, a não ser opondo-se ao sistema – o que não é pouca coisa? Algumas frases de Camus continuam toques címbalos mais literários do que filosóficos: “Chamo de verdade a tudo o que continua”. O fato de não se impor como filósofo não o impediu de ser um pensador com envergadura estimulante. Pelo contrário! Algumas de suas idéias de filosofia política são mais aceitáveis nesse final de século 20 do que ideologias que sucumbiram com o desmoronamento do mundo comunista. (TODD, Olivier. Albert Camus: Uma vida. 1998.)”. 

Engajamento e paixões no jornalismo

Considerando o que Todd alega sobre a intelectualidade peculiar de Albert Camus, a lição final que eu gostaria de deixar nesta breve palestra é que ele foi, acima de tudo, um intelectual que lutou por uma experiência moral válida, que discute a ética no concreto e no limite, fazendo jornalismo de guerra e colocando que uma imprensa engajada, e nem sempre comercial, é muito mais comprometida com seus trabalhos. Aliás, é de se pensar que Camus contribuiu muito mais para a filosofia moral não seguindo Sartre de forma cega e adotando uma postura mais ensaística e concreta, como os ensaístas de tradição francesa ou mesmo como Nietzsche fez em sua filosofia ateia e profundamente crítica. Uma reflexão que fica, para jornalistas e filósofos interessados nesta palestra, não é a defesa de um jornalismo estruturado de forma imutável ou mesmo uma ontologia, uma filosofia autodeclaratória.

Este debate sobre Camus na imprensa mostra, na verdade, que ele criou filosofias e literaturas meramente exercendo sua ética no jornalismo. E que não precisamos pensar em nós mesmos como grandes pensadores do mundo ocidental, mas apenas trabalhar na transmissão de ideias coerentes. O engajamento de Camus, acima da própria esquerda francesa, defendia uma coerência interna que transborda em tudo o que ele escreveu em vida. O Mito de Sísifo, um de seus maiores ensaios, mostra que o mito grego de Sísifo é a personificação do absurdo. O personagem mitológico foi amaldiçoado a carregar uma pedra até o pico de uma montanha e deixá-la cair, para repetir todo o processo. A vida é essa incoerência, essa pobreza e essa miserabilidade, mas Camus pensou, assim como os Argelinos que lutaram pela independência, que Sísifo deve ser feliz. Constatar o absurdo, mesmo que seja inevitável, é lutar contra ele. E essa luta deve resultar numa morte feliz. 

O editor do jornal O Estado de S. Paulo e da Folha de S. Paulo na época da ditadura militar, Cláudio Abramo, teve o privilégio de conversar com Albert Camus em 1949, quando ele já tinha deixado os editoriais do Combat e estava visitando o Brasil, uma terra tão mergulhada no subdesenvolvimento quanto outras. E ele disse uma coisa importante sobre as ideias, que se desenvolveram inclusive quando ele esteve na imprensa: “A propaganda, as ideologias tornaram abstratas as relações humanas. Cabe-nos individualmente torná-las novamente concretas. Antes de mais nada resistindo às forças de abstração e morte. Em seguida, estabelecer, acima das fronteiras e dentro de nós mesmos, uma corrente de calor e solidariedade. Pugno pela paixão, não pela ciência, em tudo o que é humano”. 

Camus, que era goleiro e jogava futebol, conseguiu ser um filósofo, um literato e um pensador mesmo militando pela imprensa escrita, descrita como superficial e grosseira. Não admitia que era pensador, mas tinha considerações importantes sobre a filosofia de sua época e que funcionam até para as pesquisas ontológicas de hoje. Eu destaco uma aspa de seus Carnets, o II, separada pelo pesquisador Manuel da Costa Pinto. O texto abre seu livro Albert Camus: Um elogio ao ensaio: 

“Os filósofos antigos refletiam muito mais do que liam. Por isso se ligavam tão estreitamente ao concreto. A tipografia mudou isso. Nós lemos mais do que refletimos. Não temos filosofias, apenas comentários. Há nessa atitude tanto de modéstia quanto de impotência. E um pensador que começasse seu livro com essas palavras: ‘Tomemos as coisas em seu princípio’ estaria se expondo a sorrisos. A tal ponto que um livro de filosofia que surgisse hoje sem se apoiar em alguma autoridade, citação, comentário, etc. não seria levado a sério”. 

Talvez devêssemos apelar ao ensaio, um método fechado em si, ou às filosofia mais ousadas para escapar de um pensamento fruto de comentadores de filósofos. Talvez devêssemos investir em jornalismo engajado, mesmo dentro do capitalismo, para oferecer uma visão mais rica dos acontecimentos cotidianos, assumindo nossos lados nas disputas sociais, mas sem cair em teses que extrapolam a realidade. É por esse motivo que pretendo continuar essa minha investigação, que começou com o Combat entre 1944 e 1947, para também investigar os artigos de editorialista de Camus no l’Express, publicação concorrente do Le Monde, entre 1955 e 1956. 

Também aproveito para recomendar uma coluna de Jack Shafer à agência de notícias Reuters. No texto, ele acredita que o jornalismo crítico de Albert Camus está vivo na opinião diversificada da internet. Embora muitos possam não concordar 100%, é uma maneira de passar a mensagem de engajamento e intelectualidade do jornalismo de Camus para as gerações atuais. O link estará na bibliografia desta aula. 

Gostaria que nesta palestra ficasse claro que, muitas vezes, o jornalismo é um caminho válido para que você experimente, genuinamente e contra a maioria das expectativas médias, uma experiência intelectual genuína, como fez Camus e muitos profissionais de mídia durante a Segunda Guerra Mundial. Sofrendo pressões de todo tipo das forças militares no front de batalha. 

Referências

Livros:

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BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na Comunicação. Summus Editorial. São Paulo, 2003.

BARTHES, Roland. Inéditos – Volume 4: Política. Editora Martins Fontes. São Paulo, 2005.

BELTRÃO, Luís. Jornalismo Opinativo. Editora Sulina. Porto Alegre, 1980.

BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. Companhia das Letras. São Paulo, 2008.

CAMUS, Albert. A Inteligência e o Cadafalso e outros ensaios. Editora Record, 2002.

CAMUS, Albert. A Morte Feliz. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2005.

CAMUS, Albert. A Peste. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2006.

CAMUS, Albert. A Queda. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2006.

CAMUS, Albert. O Avesso e o Direito. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2003.

CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2005.

CAMUS, Albert. O Exílio e o Reino. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 1997.

CAMUS, Albert. O Homem Revoltado. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2005.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2006.

CAMUS, Albert. O Primeiro Homem. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2005.

CAMUS, Albert. Calígula: peça em quatro atos. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1963.

CAMUS, Albert. Calígula. Éditions Gallimard. Folio Théâtre. França, 2008.

CAMUS, Albert. Cartas a um Amigo Alemão. Editora Livros do Brasil. Lisboa, 2003.

CAMUS, Albert. Diário de Viagem. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 2004.

CAMUS, Albert. Estado de Sítio. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2002.

CASTRO, Gustavo de e GALENO, Alex (org.). Jornalismo e Literatura. Editora Escrituras. Coleção Ensaios Transversais, 2002.

COSTA P., Manuel. Albert Camus: Um Elogio ao Ensaio. Ateliê Editorial. São Paulo, 1999.

FERREIRA, Carlos Rogé. Literatura e Jornalismo, Práticas Políticas. EDUSP. São Paulo, 2004.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A Editora. São Paulo, 2004.

LEVI-VALENSI, Jacqueline (ed.). Camus at Combat: Writing 1944-47. Princetown University. Nova Jersey, 2002.

NUNES, Aparecida Maria. Clarice Lispector Jornalista. Editora SENAC. São Paulo, 2006.

TODD, Oliver. Albert Camus: Uma vida. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo, 1998.

WINOCK, Michel. O Século dos Intelectuais. Editora Bertrand Brasil. Rio de Janeiro – São Paulo, 2000.

Artigos em jornais:

RENTERGHEM, Marion Van. A Filha do Estrangeiro. O Estado de S.Paulo. Caderno mais! São Paulo, 9 de setembro de 2007.

Artigos em revistas:

BARBOSA, João Alexandre. O ensaísmo enviesado de Albert Camus. Revista Cult. São Paulo, agosto de 1998.

COSTA P., Manuel. Inimigo de si mesmo. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

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COSTA P., Manuel. O mediterrâneo é aqui. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

COSTA P., Manuel. Uma terra sempre estranha. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

GUTIÉRREZ, Jorge Luís. A Revolta do Homem Absurdo. Revista Filosofia, Ciência e Vida. São Paulo, abril de 2008.

LIUDVIK, Caio. Camus e Sartre, amizade e conflito. Revista Entre Livros. São Paulo, junho de 2007.

Revista Cult: Camus é filósofo? “Nietzsche agiu como um álcool forte sobre Camus” - http://revistacult.uol.com.br/home/2012/10/%E2%80%9Cnietzsche-agiu-como-um-alcool-forte-sobre-camus%E2%80%9D/

Sites da internet:

Artigo de Albert Camus na Wikipédia, a enciclopédia on-line.
Disponível em português em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Disponível em inglês em: http://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Disponível em francês em: http://fr.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Acessados em: 20 de dezembro de 2007.

RENTERGHEM, Marion Van. Catherine Camus Profession: fille d´Albert, Artigo do no LeMonde.fr, do dia 29 de agosto de 2007. Disponível em:
Acessado em: 22 de outubro de 2007.

CAMUS, Albert. Editorial de Combat, 8 août 1945, jornal Combat. Disponível em: http://www.matisse.lettres.free.fr/artdeblamer/tcombat.htm
Acessado em: 12 de novembro de 2008.

Manifesto inédito de Camus descoberto em 2012, envolvendo a imprensa: http://www.albertcamus.com.br/2012/04/manifesto-sobre-liberdade-de-imprensa.html
Acessado em: 8 de junho de 2013.

Artigo de Jack Shafer, na Reuters, sobre Camus: http://blogs.reuters.com/jackshafer/tag/albert-camus/
Acessado em 8 de julho de 2013.